quinta-feira, 19 de maio de 2011

Visões do MinC em três tempos

As diversas polêmicas envolvendo a cantora e atriz Ana de Hollanda no comando do Ministério da Cultura (MinC) nos convoca a pensar sobre o que está mesmo acontecendo para motivar o que o ministro Gilberto Carvalho (Secretário-geral da Presidência da República) chamou de "orquestração sórdida". Para tentar compreender tudo isso, revisitei os efeitos das filosofias das políticas culturais brasileiras nos governos Fernando Henrique (1995 - 2002) e Lula (2003 - 2010) e os primeiros movimentos do MinC no governo Dilma Rousseff.

A degradação da nossa ecologia cultural no governo tucano deu-se a partir da doutrina neoliberal do estado mínimo, o que fez com que os destinos da cultura fossem entregues aos interesses do mercado. A máxima da inevitabilidade da globalização econômica e o alinhamento incondicional com as políticas de planificação do mundo, lideradas pelos Estados Unidos, violou os conceitos de valor artístico e social da arte, restringido-a a uma exagerada mercantilização.

O lema do "presidente esclarecido" era levar o País ao "primeiro mundo". Em nome dessa aspiração a cultura foi vinculada, por força de lei, ao gosto publicitário e acabou resumida a produto de consumo de massa. Deu praga na nossa variedade de espécies artístico-culturais. O que valia era a relação custo-benefício, com a estética da grana deitando e rolando em nossos bens simbólicos, em total abandono de qualquer coisa que não significasse lucro.

O Ministério da Cultura de Francisco Weffort ficou a ver o desfile do império das louras do "tchan", do pagode higiênico (negros de paletó e cabeça raspada para esconder o pixaim), da proliferação do rap e do funk como recursos de protesto das periferias, da literatura esotérica e de autoajuda, da síndrome das celebridades de "Caras", do Polishop da fé tele-evangelizada, da ciência de resultados, dos programas de baixaria áudio-visual e outros shows de horrores consumidos como diversão e lazer.

Na era FHC, a nossa diversidade inventiva passou a ser vista apenas como insumo de produção em grande escala. O ideário abraçado pelo tucanato nos levou a um período de anticultura, de atração pelo que não somos, de desfiguração das essências pela sedução das novas embalagens. A representação da cultura nacional chegou a ser feita oficialmente por um hino breganejo nas comemorações do quinto centenário. Para completar, no apagar das luzes, o mercado brasileiro de livros foi praticamente entregue às editoras transnacionais de "best sellers".

Embora o crescimento da internet no Brasil tenha ocorrido logo no início do governo FHC, o mercado digital tomou gosto comercial pela cultura brasileira na era Lula. Os tempos de Juca Ferreira à frente do MinC - primeiro como secretário-executivo de Gilberto Gil e depois como ministro efetivo _ coincidiram com a instalação no País de grandes empresas do mercado mundial de conteúdos, que ocuparam estrategicamente o "share of mind" (participação da marca na percepção do consumidor) dos usuários brasileiros, com propaganda lastreada nos princípios democráticos da rede mundial de computadores e na praticidade de comunicação da telefonia digital.

Nesse cenário, o MinC desenvolveu um trabalho extraordinário de ativismo reflorestador da cultura brasileira, investindo forte na militância cultural em uma grande semeadura que contemplou manifestações artísticas e culturais dos povos indígenas e dos imigrantes africanos, europeus, árabes, asiáticos e dos vizinhos americanos, que contribuíram para a nossa sedimentação multiétnica. A cultura popular refloresceu no governo Lula, entre as ervas daninhas das ofertas anunciadas pela nova ordem de consumo e os transgênicos disseminados pelas corporações que dominam os canais das quatro telas (televisão, computador, cinema e celular) por onde escoam as induções dos hábitos massificados de consumo.

O MinC lançou mão do ferramental tecnológico disponível para fazer uma revolução, onde Pontos de Cultura reintegram a arte ao cotidiano das comunidades e teias culturais se articulam, dando unidade à nossa diversidade. Essas e outras ações estimularam novos modos de produção, em muitos dos quais o processo autoral toma as feições de criação coletiva e os coletivos assumem o fazer cultural construindo outras vias comerciais, independentes do tradicional mercado de bens e produtos. Uma maravilha que, infelizmente, não conseguiu combinar reflorescimento com estratégia sustentável de País.

As grandes corporações do mercado de conteúdos perceberam a existência dessa vulnerabilidade e viram nela uma oportunidade para conseguir insumos culturais gratuitos, como redução de custos dos seus negócios bilionários. Colocaram lobistas e patrocinaram consultores para contaminar os órgãos oficiais de cultura com a lógica da economia do mercado digital. O resultado desse descuido oficial foi o surgimento de uma cumplicidade aloprada, consciente ou não, entre os responsáveis pelos interesses do mercado e os novos produtores de bens e serviços culturais, brotados a partir do fomento feito pelo MinC, o que resultou em uma estranha versão atualizada do neoliberalismo tucano.

A situação começava a ficar crítica, quando elegemos a presidenta Dilma Rousseff e ela convidou Ana de Hollanda para ser ministra da Cultura. O tempo de gestão da nova ministra ainda é muito curto para fazermos qualquer juízo da sua filosofia de gestão, mas pelas primeiras medidas que ela tem tomado à frente do MinC nota-se que aponta para uma consciência da preservação da biodiversidade cultural, com atenção especial à valorização das madeiras de lei, que são os refinadores de arte. Nessa perspectiva, a ministra Ana dará continuidade à parte louvável do trabalho de Juca Ferreira, mas ajustando o setor ao nível que ele precisa alcançar para contribuir efetivamente com o desenvolvimento político, social e econômico do País dentro da nova conformação geopolítica mundial.

A ministra tem tomado medidas acertadas, como a retirada do portal do MinC do selo "Creative Commons", que simboliza o novo padrão de "copyright" do mercado de conteúdos, e a revisão da legislação de incentivo à cultura e de direitos autorais, comprometidas em suas essências pela ambiguidade das circunstâncias em que foram formuladas. Ambas precisam encontrar pontos de flexibilidade que as ponham em linha com os interesses mais legítimos da sociedade. Nesse aspecto, espera-se que a ministra pressione também o Ecad (Escritório de Arrecadação e Distribuição de Direitos Autorais), por mais transparência na distribuição do quase meio bilhão arrecadado anualmente com execução pública de música.

Em apenas cinco meses de gestão, Ana de Hollanda tenta cumprir os contratos da administração anterior e dinamizar o ministério com uma cota orçamentária um pouco maior do que a arrecadação do Ecad. Mesmo assim, ela já criou uma Diretoria de Educação, para desenvolver, juntamente com o MEC, programas dirigidos a professores e estudantes, no momento que o Plano Nacional de Educação prevê que pelo menos metade dos nossos cinquenta milhões de jovens frequentarão a escola em tempo integral. O MinC está trabalhando nos projetos culturais do Brasil para a Copa de 2014 e Jogos Olímpicos de 2016, sem contar com o mapeamento que está sendo feito para fundamentar as políticas de Estado para a cultura, em consonância com o seu potencial econômico, político e de cidadania.

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quinta-feira, 12 de maio de 2011

Saudações alvinegras - 12/05/2011 - Diário do Nordeste


Os clubes de futebol, como tudo o que tem história, são criados, se desenvolvem, alguns desaparecem e outros conquistam vida longa e renovada, como o Ceará, que em 2014 chegará aos 100 anos de fundação, com uma torcida solar rejuvenescida no claro e escuro do tempo. O futebol se manifesta com jeito próprio entre encantos e desencantos vindos desde as mais puras fantasias de nossas infâncias.

Escolher um time é definir-se como parte de uma torcida, onde as regras da racionalidade não se aplicam. Torcer é algo muito subjetivo, que depende de diversos fatores, dentre os quais a boa fase vivida pelo time no momento em que se desperta para o esporte, além de suas próprias representações simbólicas. O direito à experiência de torcer, de ter ídolos, de partilhar sentimentos comuns com anônimos, assumindo os percalços e encantos que isso significa é engrandecedor.

Movido por essa compreensão, mesmo sendo torcedor do Ceará, procurei não forçar a preferência dos meus filhos na escolha dos seus times. O risco foi grande, considerando a má fase do Vovô nos últimos anos. Cheguei a ir ao estádio com eles, ora em jogos do Ceará e ora em partidas do Fortaleza, neste caso, atendendo a demandas provocadas por alguns dos seus amigos de escola. Ficou nisso por um período, o que foi importante para eles começarem a demonstrar interesse pelo caderno Jogada, a ver alguns jogos pela televisão, inclusive das ligas internacionais, e a comentar os resultados das partidas.

Quando percebi estava lá, o meu filho mais velho, o Lucas, de 11 anos, querendo ir ao estádio torcer pelo time escolhido por seu coração alvinegro. Desde o ano passado que passamos a ir ao estádio com mais frequência. No dia do meu aniversário, eles me deram de presente uma camisa oficial do Ceará. O mais novo, o Artur, de 9 anos, foi cúmplice na escolha do presente, mas fez questão de ressaltar que não é Ceará, nem Fortaleza, nem Horizonte, nem Guarani... Apenas gosta de jogar futebol, de disputar campeonatos em videogames e de ver as melhores jogadas na televisão.

Dois anos atrás era mais ou menos essa a posição do Lucas. Cada qual tem o seu tempo, por isso não dá para especular que decisão tomará o Artur. Enquanto isso, Lucas e eu estamos adorando a experiência única do abraço de desconhecidos que se reconhecem pela força do preto e do branco, onde a emoção fica mais à vontade. Tem sido muito rica para nós a vivência da psicologia da multidão, das filas para comprar o ingresso e para entrar no estádio, da arquibancada com pipoca, água mineral, palavrão e o "Uhhh!" uníssono provocado pela jogada que não se completou. E, claro, da explosão do gol.

Na partida final do campeonato cearense, realizada domingo passado (8/5) no estádio Presidente Vargas (PV), entre Ceará 5 x 0 Guarani (J), que deu o título de campeão arrastão ao Vovô, apreciamos algumas manifestações que ilustram bem a diversidade da comunicação nesse ambiente de diversão e catarse. Encontramos uma expressão autêntica da nossa molecagem logo que chegamos ao estádio e vimos um cartaz com a foto do Bin Laden vestindo a camisa do Fortaleza, no qual se lia os seguintes dizeres: "Confirmado, Bin Laden morreu de desgosto".

Do riso, saímos para a vaia, quando antes do início do jogo, observamos a colocação no círculo central do campo de uma propaganda da Pepsi, com as cores vermelha, azul e branca - que caracterizam aquela marca de refrigerante - associada pela torcida à bandeira do Fortaleza. Não deu outra: vaia geral. Nas arquibancadas, além da recusa do torcedor de consumir o produto daquela "publicidade tricolor", o enredo voltou-se para a falta de sensibilidade de um marketing que poderia muito bem evitar esse tipo de reação da torcida simplesmente reproduzindo a logo na sua aplicação em preto e branco.

Dentre os episódios que só é possível experienciar estando no estádio, um dos que acho mais curiosos é quando o torcedor fala baixinho com o jogador que está fisicamente no campo distante, em uma comunicação quase silenciosa: "Fernando Henrique, você me orgulha"; "Vai, Nicácio, mostra que tu é mesmo artilheiro"; "Olha, Geraldo, o Osvaldo está sozinho"; "Chuta, chuta, Thiago Humberto!"; "Ei, Mancini, bota alguém para ajudar o Iarley"... Nesses momentos o torcedor conversa sozinho, em uma situação de transferência, mas desconfio que de alguma forma o atleta escuta seu sussurro perdido na zoadaria do estádio.

A arena de esportes é um lugar de criação e de recriação conjunta, um espaço de interações. A coeducação desportiva não se resume ao preenchimento dos motivos que aproxima as pessoas nas arquibancadas; ela possibilita o exercício de diferentes modos de ver, pensar, sentir e dizer do mundo entre vozes recatadas e expansivas. Neste aspecto, gosto de acompanhar meu filho se constituindo pelos significados do crescimento social, seus movimentos em busca de ser o que é potencialmente. Sem contar que o tempo dele é também o meu tempo nessa prazerosa articulação intergeracional.

Uma das características que aprendi a apreciar no futebol é que em torno da bola há um pacto de contraversão por meio do qual nada pode ser afirmado sem levar em consideração o contraditório. Chamar o juiz de ladrão? Pode. Dizer que o técnico é vendido? Pode. Acusar o atleta de mascarado? Pode. Xingar a mãe do presidente do clube? Pode. São gritos que não necessitam de provas para serem bradados, simplesmente porque as acusações não precisam ser reais para lhes dar motivo. Na torcida, todos podem impor suas razões, sabendo que dificilmente alguém as acatará.

Fora das linhas do campo, o combustível do futebol é o falatório, a novelização, o elogiar e o esculhambar. Tudo o que acontece em uma partida nos afeta instantaneamente, nos faz chutar o nada, nos irrita, nos levar a cantar de alegria e a dizer palavrões. Vestir a camisa do time é vestir a partida inesquecível, a decisão dramática, o lance marcante. Tenho predileção por jogo bonito, bem jogado, elegante e raçudo ao mesmo tempo. Prefiro perder uma partida bem disputada que ganhar jogando feio, com movimentação travada, em busca apenas do resultado.

Da arquibancada do estádio ao sofá de casa, o torcedor contempla, vibra, lamenta e chora porque mais do que pelo resultado do jogo, ele torce também por si, pelo seu repertório de reações e capacidade de traduzir a partida em um idioma de universalidade. Esse me parece ser o grande segredo do futebol. Não é à toa que a Federação Internacional de Futebol (Fifa) tem mais países filiados do que a Organização das Nações Unidas (ONU), em um placar de 208 x 192. O futebol faz a grande liga de nações em um tipo de congraçamento que transpassa culturas, ideologias, situações políticas e condições econômicas.

Torcer é como nadar e andar de bicicleta, quem aprende nunca esquece. A criança sonha em ser jogador e se vê realizando os lances mais espetaculares. Na arquibancada, troca passes com o adulto, no tempo em que este também sonhou assim. E mesmo que um se projete no futuro e o outro se traga do passado, o encontro acontece no presente. O abraço do pai e do filho na hora do gol é o abraço de quem já passou por isso com quem está descobrindo a emoção de torcer. Cada lance é um lance, cada vibração uma vibração, um olhar, um gesto, uma identidade que se pronuncia. E viva o Ceará, campeão de 2011, com palmas especiais para o Dimas Filgueiras, que uniu caráter, competência e compromisso na revitalização do coração alvinegro.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Dona Zefinha de Itapipoca - Diário do Nordeste - 5/5/2011

Teve trovão e relâmpago antes da hora de começar o evento de inauguração da Casa de Teatro Dona Zefinha, na noite do sábado passado (30/04) em Itapipoca. A chuva fez todo mundo andar com calma pelas ruas cheias de água corrente. Dos postes as luzes se lançavam ao aguaceiro em um refrescante farfalhar de brilho e negrume. Mas, como se estivesse tudo combinado, as nuvens deram uma trégua bem na hora da festa.

Quem, como eu e a minha família, chegava ao bairro do Jenipapo pelo calçamento da rua Francisco dos Santos Braga, via logo uma tabuleta que identificava na casa verde de número 321 a novidade cultural da cidade. Na parede da sala, uma galeria de cartazes de shows da banda, realizados no Ceará, no Brasil e em vários países do mundo. Tudo muito simpático, muito caprichado e consistente.

No segundo compartimento, uma luz amarela destacava na parece verde uma compilação de páginas de jornais, com matérias de cobertura dos feitos e efeitos do grupo, onde se lia em letras vazadas na tarja ao centro: "Dona Zefinha - 20 anos de teatro, música e outras invenções (1991 - 2011)". Logo ao lado, uma luminária de boneco gigante, um estandarte com a programação das atividades do mês e o início da exposição fotográfica com a trajetória da companhia resumida em dez espetáculos montados nessas duas décadas.

Um texto do ator e diretor teatral Fernando Piancó sintetiza o clique dos fotógrafos: "(...) No começo eram apresentações de teatro de rua, onde os folguedos eram a tônica dominante do grupo. Por desejo e necessidade do próprio trabalho, os componentes da Trupe Metamorfose começaram a pesquisar, estudar e experimentar instrumentos populares como a rabeca, a zabumba, o pandeiro, os pífanos, entre outros. Daí criaram a Dona Zefinha, que além de performance cênica no palco, produz uma bela fusão de sons e ritmos... com letras inteligentes, narrativas instigantes".


A Casa é uma casa típica do interior: sala de chegada, quarto da frente, sala de estar, corredor comprido, ladeando quartos, e cozinha. No primeiro quarto está sendo montado o estúdio de ensaios com revestimento acústico e, ao lado, fica o alpendre, que passou a fazer as vezes de auditório. A decoração de interior, feita pela Joélia Braga, traduz em leve e aconchegante relação estética e funcional o espírito da Casa. De uma lado do corredor, a sequência de imagens, do outro, arranjos de máscaras e lâmpadas. E no teto, uma estampada chita em cores vivas da cultura popular.

Além da sala de música (estúdio), pode-se ver porta a porta o ateliê de criação e restauro de figurinos e adereços, espaços de pesquisa, produção e um quarto com beliche e cama para o que eles chamam de hospedagem solidária. Esse cantinho para alojar visitantes, pesquisadores, parceiros e convidados para participar das atividades da Casa de Teatro Dona Zefinha é bem característico do estado de cumplicidade com que o grupo, liderado pelo multiartista Orlângelo Leal, pretende conduzir seu engenho de invenções musicais e cênicas.

Na área da cozinha, um projetor mostrava fotos e vídeos dos espetáculos da banda, sob a vigília da estatueta do Padre Cícero em cima da geladeira. Fiquei muito contente de ver artisticamente grafitada na parede final uma frase minha, retirada do encarte do CD "Zefinha vai à feira" (2007): "O que existe em certas coisas que mexem com a gente? Por que contemplamos algumas e por que viramos o rosto para outras? Somos as nossas interrogações". Parei para pensar novamente sobre isso, a partir do que estava sentindo naquele momento festivo.

O que a fixação da Dona Zefinha naquele espaço pode significar como testemunho da universalidade do trabalho do grupo? Quanto de recuperação do tecido social comunitário pode ser atribuído a um projeto como esse? Como essa decisão do grupo de plasmar a vida entre a beleza e as necessidades cotidianas será observada pelo povo de Itapipoca? Até onde os parâmetros sociais, ainda sob forte efeito da massificação, abrem espaço para o desenvolvimento da arte como expressão da subjetivação das pessoas e dos conceitos? Estará nesse tipo de projeto alguma perspectiva de caminho para a subjetividade como condição essencial ao viver autônomo, integrado e criativo?

A Casa da Dona Zefinha integra um sistema de referências de motivações, atividades e comportamento, que pode estar sendo fomentado pela viabilidade financeira proporcionada pelo Edital de Incentivo as Artes, da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará (Secult). Com meios para o diálogo entre conhecimento e prática, com usos em forma de compartilhamento do pensar e do agir e com linguagens cênicas e musicais seu funcionamento certamente se converterá em uma sempre renovada produção de conteúdos e de aproximação dos elos culturais existentes à medida que cria uma zona de iluminação de gente com rosto, com valor e com direito à cultura.

Em sua disposição reconstrutiva da vida orgânica, a Dona Zefinha mostra seu jeito agregador de interferência no cotidiano estendendo seu equipamento de invenção cultural a parcerias com outros grupos e iniciativas. De saída, essa troca está acontecendo com a Orquestra Unisol, regida pelo trompetista e violinista Samuel Furtado, com a companhia de dança Balé Baião, com o Núcleo de Artes Cênicas (Nace) da Facedi/Uece e com a Associação dos Amigos da Arte de Guaramiranga (Agua).

Uma característica, que é ao mesmo tempo atributo e virtude na Dona Zefinha, é o fato de ela ser formada a partir de um grupo familiar coeso, talentoso e animado. O Orlângelo, o Ângelo Márcio e o Paulo Orlando são irmãos e a Joélia é casada com o Orlângelo. Mas a força afetuosa dessa característica envolve e compromete os pais, as mães, os tios e as tias deles, sem contar com os irmãos colaços, integrantes diretos e indiretos da trupe e da banda. É uma maravilha. Na montagem da Casa e para a festa de inauguração eles contaram com as habilidades e o empenho da Angelita, Gilberto, Luciano Cacau, Maninho, Mazé, Olga, Orlando Cacheado, Samuel, Tamily, Thais e Vanildo. Isso desde o serviço de carpintaria até a preparação dos comes e bebes.

A atração da noite de inauguração foi o "Jazzeira Trio", formado por Wagner Ferreira (baixo), Marcelino Ferreira (guitarra) e Rafael Teixeira (bateria), todos ex-alunos da escola de música de Guaramiranga. Eles foram os primeiros hóspedes da estalagem solidária da Casa de Teatro Dona Zefinha. E como é regra da Casa para quem for se hospedar por lá, na parte da manhã eles ofereceram à comunidade uma oficina de "improvisação e prática de conjunto", cujos participantes tiveram a oportunidade de fazer dobradinha com a Jazzeira em uma das músicas executadas à noite no alpendre.

O evento foi transmitido em tempo real pela internet. Francisco Constantino, monitor do Centro de Informática da Escola de Comunicação da Serra (Projeto Ecos), cuidou de colocar tudo no ar, mas também compartilhou, com os itapipoquenses que desejaram, um pouco do seu conhecimento de manipulação de softwares de áudio e vídeo e sobre montagem de equipamentos de transmissão.

Com suas atividades de ensaios e de produção comercial acessíveis à vida comunitária e com programações voltadas para a troca de ideias e leituras dramáticas, a Casa de Teatro da Dona Zefinha inverte a lógica das objetivações, que costumam tomar o outro como objeto. Que o digam as crianças que ficaram com a Gisa, mulher do Márcio, contando divertidas histórias no chão da sala.



quinta-feira, 28 de abril de 2011

Uma didática ao anticonsumismo - Diário do Nordeste - 28/4/2011

A educação para o consumo passa obviamente pelo uso racional do dinheiro, pela priorização do que é mesmo necessário e pelo aprendizado em favor de escolhas responsáveis na hora da compra de bens e serviços. Passa também pelas leis de proteção e de defesa do consumidor e pela própria consciência que cada pessoa ou grupo de pessoas tem da sua força de pressão sobre o mercado. Mas passa, antes de tudo, pelo modo como inspiramos uns aos outros em simples e caseiros comentários cotidianos.

Uma das formas desse educar, que mais me parecem tranquilas e de grande eficiência, está nas observações despretensiosas que normalmente fazemos diante dos acontecimentos. Tudo o que testemunhamos no próprio lugar ou o que sabemos pelo noticiário e por meio de redes de relacionamento dá margem a comentários educativos. A riqueza das contradições constitui uma inesgotável fonte de formação, o que faz da apreciação espontânea uma prática educacional desenvolvida em uma série de circunstâncias.

Os exemplos que facilitam o compartilhamento da nossa maneira de ver a questão do consumo que não mede consequências surgem a todo momento e nos mais variados domínios e situações. Tomando como referência o caso do recolhimento, na semana passada, das peças da coleção "Pelemania", das lojas Arezzo em todo o Brasil, é possível despertar um sem-número de conversas e atitudes. Afinal, a empresa respeitou o posicionamento dos consumidores, após intensos protestos nas mídias de relacionamento contra a venda de produtos confeccionados com peles de animais.

O interessante é que essas manifestações traduziram uma rejeição ao uso de peles verdadeiras, a despeito de certificados de origem, o que demonstra o crescimento da intolerância da sociedade diante de certas práticas contra a natureza. Rejeição essa que alcançou as modelos que levaram para as passarelas e comerciais as bolsas, bijuterias e estolas da grife, feitas de peles de coelhos e raposas. Uma delas, Emily Germano, respondeu às acusações na própria internet: "Gente sou apenas uma modelo, não uso e nem compro pele de animais, parem de me chingar!!!" (sic).

Independente de ela ter escrito xingar com "ch" - o que infelizmente acabou desviando a atenção de muita gente do foco do problema - dentro da resposta da modelo revela-se uma grave sutileza, normalmente identificada no posicionamento de muitos profissionais que servem à promoção do consumo, embora não comprem nem usem os produtos a que atribuem valor e dão visibilidade. Levantar dúvidas sobre essas posturas e comentá-las com os filhos é fundamental na paciente e complexa missão de desconstrução do consumismo.

A mesma reação alienada e alienante de Emily foi demonstrada pela cantora Sandy no mês passado, quando questionada pela colunista Mônica Bergamo (FSP, 08/03) sobre a associação da sua imagem de boa moça à cerveja Devassa: "Essa é uma discussão que não cabe a nós, artistas. Somos contratados para fazer propaganda. Se é bom para nós, a gente vai lá e faz. Todos são autorizados a beber. Essa responsabilidade não cabe aos artistas. Essa discussão é para psicólogos, deputados, especialistas. Não quero me meter".

Ao afirmar que não quer se meter nessa questão - mesmo metida até o último cheque do seu contrato - Sandy se coloca como se não tivesse nada a ver com o crescimento do consumo desordenado de álcool por adolescentes, embora seja uma cantora identificada com esse público. Sua desculpa é semelhante a da modelo da Arezzo. Uma pede para não ser alvo de xingamentos, por não usar nem comprar pele de animais, e a outra, se esquiva das críticas sob o argumento de que "a gente não precisa gostar exatamente do produto para fazer a propaganda". E, talvez para não desagradar o patrocinador, jura "por Deus" que experimentou e gostou da cerveja.

Na didática da conversa solta não é necessário fazer qualquer atalho para dizer quem tem ou não razão. Basta deixar o assunto circular. Se tiver como alimentar o tema com contrapontos, então, a possibilidade de êxito aumenta. Na mesma coluna (20/02) uma entrevista com o Rivaldo, ex-jogador da Seleção Brasileira de Futebol, chamou a minha atenção. Ele sustenta que não há fortuna no mundo que o leve a fazer propaganda de bebida alcoólica. "Sou um atleta e quero ser um exemplo, principalmente para as crianças que gostam de esporte". Depois de uma declaração dessas, a percepção de que lucrar com a imagem tem vínculo direto com o respeito a quem precisa dela para se espelhar fica naturalmente disponível para ao discernimento de cada um.

E quando esse tipo de recurso não faz parte das práticas familiares e escolares? Ora, as crianças ficam sem a oportunidade de referências comparativas e quase sempre embarcam no cruzeiro do consumismo. Achei muito sintomáticas as respostas de umas mães que foram entrevistadas pelo repórter Paulo Sampaio (Fashion Kids reúne ´socialitezinhas´, OESP, 03/04), tendo como recorte a participação das filhas em um desfile de moda infantil, que acontece no shopping Iguatemi de São Paulo: "A minha filha quer óculos Chanel, Prada. A gente gosta de coisa boa, elas aprendem", anuncia o alheamento de uma; "Eu não imagino minha filha colocando uma roupa da Renner nem para dormir", complementa o preconceito da outra.

Estou escrevendo esse texto em São Paulo e aqui é bem nítida a condição da infância amuralhada, embora essa seja uma sina comum das meninas e dos meninos dos grandes centros urbanos. Não sei não, mas dá uma tristeza saber dessas crianças sempre confinadas em lugares fechados, tendo como horizonte apenas os contornos das janelas dos carros e as telas dos celulares, computadores, cinemas de shopping e televisões, por meio das quais buscam enxergar referências condicionadas aos objetos do consumismo e ao vazio de experiências reais das celebridades. Tanto que passear de limusine tem sido o presente de aniversário escolhido por muitas crianças paulistanas.

Por mais deploráveis que possam ser tais situações faz bem comentá-las abertamente em casa. Pode ocorrer dos nossos filhos acharem fantástico algo que não aprovamos, como pode acontecer de eles se colocarem em posição extrema apenas para testar as nossas convicções. Sejam quais forem as posições por eles tomadas, trata-se de uma vivência preciosa no processo de redução das indeterminações que fomentam os conflitos próprios das tentativas de ser alguém em um mundo onde os sinais de adequação das utopias parecem perto demais da sobrevida do lúmpen.

A apreciação desprendida de juízo imediato cria ambiente para o conforto das considerações e facilita o exercício educacional, sedimentado pelas interrogações que cada fato aporta ao instante. E temos que começar esse exercício o mais cedo possível. As corporações de produtos infantis, que vinham atraindo a meninada com games, filmes e best-sellers de possessões, demônios incontroláveis e situações apocalípticas, começam a atacar com marketing neonatal, iniciando o assédio à infância com brindes de produtos a recém-nascidos ainda na maternidade.

Um bom comentário a ser ventilado nas ocasiões propícias é o que põe na conversa a atenção com que a lei observa a criança mesmo em letras voltadas para adultos. É o caso da nova legislação antifumo da Espanha que proíbe as pessoas de fumarem em parques infantis, e da lei estadunidense que não permite a ninguém fumar em carro com crianças. Esses casos servem para os nossos filhos saberem que nem tudo está perdido.


segunda-feira, 25 de abril de 2011

Dimensões do jogar e do brincar - Diário do Nordeste - 21/4/2011


A reflexão sobre o brincar na sociedade contemporânea é uma das linhas de abordagem do mestrado em Estudos da Criança, da Universidade do Minho, em Portugal. Foi para conversar acerca desse assunto que no sábado passado, 16, recebi em minha casa a mestranda Luciene Silveira que, sob a orientação do professor Camilo Cunha, vem desenvolvendo em sua dissertação o conceito de cultura vinculado a jogo e brincadeira, como impulsores de criatividade, motricidade e sociabilidade.

O tema me encanta e está tratado por diversas angulações no meu livro "Eu era assim - Infância, Cultura e Consumismo" (Cortez Editora), o que fez com que a pesquisadora me procurasse para essa conversa a respeito do comportamento infantil, da necessidade de mais espaços para brincadeiras, da cultura lúdica e sua diversificação conforme a condição social, o contexto, os valores, as referências simbólicas, as expectativas e possibilidades da criança e suas potencialidades para o desenvolvimento integral, como alicerce da vida em sociedade.

Combinei com a Luciene que compatilharia com você, leitor, os pontos principais da gravação que ela fez comigo e ela gentilmente concordou.

Ela quis saber inicialmente o que representa para mim o jogar e o brincar, na dimensão ontológica. Respondi que no plano do ser enquanto ser, jogar e brincar representa o lúdico, que é próprio da condição humana, independentemente de idade. Daí a importância da combinação da brincadeira com regras, que é o jogo, com a experiência espontânea do brincar, que se realiza exclusivamente ao sabor da imaginação.

E na dimensão antropológica? - ela perguntou. Respondi que, considerando as variações das características dos lugares e dos povos, jogar e brincar integram o âmbito da cultura, que também é própria da condição humana, em todas as suas fases. Uma boa ilustração para esse quê de memória biológica e social é a transfiguração da função de algumas armas, tais como o bumerangue, a espada e a pipa (arraia), quando convertidas em brinquedos.

Assim, o jogar e o brincar englobam nessas duas dimensões um estado complementar de ancestralidade, de experiência de tempo presente e de perspectiva evolucional, cujos fluxos, percebidos ou não, constituem os vínculos inventivos para a exploração prática do real. É a imaginação possibilitando que a criança, mais do que assimilar o meio, desenvolva formas de interferir na sua relação com o ambiente em que vive.

Luciene Silveira quis que eu dissesse o que entendo por cultura e suas dinâmicas. Respondi que cultura é a construção social da realidade. O que possibilita que o real seja configurado de diferentes modos. Cada povo, cada sociedade, cada civilização constrói a sua percepção de realidade, por meio da qual se sustenta culturalmente. Ao se relacionar com o mundo, agindo no cotidiano, produzem interpretações do real que não necessariamente são as mesmas. Neste aspecto, precisamos separar o que há de comum no humano em si do que existe de diferente em sua visão desenvolvida a partir da trama da coletividade.

A história está cheia de exemplos de encontros e choques de realidades, modeladas por diferentes culturas. A realidade da civilização grega, fundada no pensamento refinado, nas leis, na arte, no esporte, na riqueza mitológica e nas ágoras, foi derrotada pela realidade romana, estruturada no poder bélico. A realidade dos preceitos sociais estabelecidos pela força da espiritualidade indiana foi dominada pela realidade inglesa, inspirada no princípio da pirataria. Os processos de ocupação das Américas e das Áfricas, decorrentes das grandes navegações, provam bem as diferentes realidades, definidas pelos modelos mentais de colonizadores e colonizados.

A pesquisadora da Universidade do Minho e eu estamos de acordo com o pensamento do filósofo francês Gilles Brougère, quando este diz que "é necessária a existência do social, de significações a partilhar, de possibilidade de interpretação, portanto, de cultura, para haver o jogo". Ela fez um recorte no tema e me perguntou qual a relação entre jogo e cultura, na perspectiva educativa e formativa. Respondi que entendo essa perspectiva como definidora de fronteiras na preparação do ser social. É nela que se dá o aprendizado do ganhar e do perder, do aprender a esperar, enfim, do respeito aos padrões determinados nas regras do jogo.

A relação entre jogo e cultura tem grande importância na busca por uma sempre melhor integração das pessoas consigo mesmas e no convívio social. É através desse exercício que todo um conjunto de sensibilidades se desenvolve. Sensibilidades no que diz respeito à tolerância, à alteridade, à memória coletiva e à relação com o espaço e com o tempo. Então, considerando o jogo como leito natural do lúdico e a realidade construída como fruto da cultura, entendo essa relação como condição de relacionamento e sentido de destino indispensáveis para que a humanidade realmente evolua.

Que caminhos ideais e que dificuldades eu observo quando penso em relação intermulticultural, me indagou Luciene Silveira. Respondi que o entrelaçamento de realidades concebidas por diferentes culturas ocorre à medida da percepção de existência de umas com as outras e na forma que elas se dispõem a se relacionar. A complementaridade, a inter-relação e a coacessibilidade são pontos fundamentais dessa questão. Os caminhos ideais passam pelo respeito à diversidade e pela reciprocidade das diferenças. A partir do momento em que um povo compreende que só tem a ganhar com a diferença do outro, tudo fica mais rico e mais harmonioso.

O registro do caráter de sociedade aberta brasileira vem desde o início da colonização, se considerarmos os relatos de antropofagia como recurso de assimilação das características positivas do outro. Salvo em circunstâncias específicas, geradoras de desconfiança, o estrangeiro sempre foi bem recebido no País. Dos relatos do mercenário alemão Hans Staden, que teria escapado de rituais de antropofagia dos Tupinambá, aos textos de historiadores que contam do bispo Sardinha, devorado pelos Caeté, vemos o quanto sentimos necessidade de incorporar o diferencial externo para melhorar a nossa vida. Foi movido por essa noção que Monteiro Lobato criou o Sítio do Picapau Amarelo, como ambientação de brasilidade aberta ao diálogo com tudo o que se passa no mundo, de forma a apreender qualidades globais.

No que tange às dificuldades, coloquei que o mundo inteiro enfrenta o problema das intensas e obstinadas tentativas de hegemonia, sejam econômicas, geopolíticas ou culturais. Os esforços para destruir o referencial do outro, apenas por gana de dominação, levaram o mundo ao atual estado de alerta social e ambiental. Entretanto, torna-se cada vez mais evidente que a reconstrução do planeta carece de compartilhamento. Não dá mais para ser apenas um dizendo o que os outros devem ser e fazer.

Para concluir reforcei a importância do jogar e do brincar como exercício de autoconhecimento e de tomada de consciência da noção de pessoa. Essa prática de se reconhecer na relação com o meio fortalece o sentido de apropriação da realidade construída e das condições de transformação dessa mesma realidade. A imaginação permite ao ser que joga e que brinca o arejar do dom de ressignificar a cultura, para que ele possa construir realidades, consolidando a virtude comum da ética e aperfeiçoando os parâmetros morais do respeito mútuo nas mais diversas realidades.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A idolatria da violência - Diário do Nordeste - 14/04/2011

Nada reabilitará o massacre das crianças na escola de Realengo, quinta-feira passada, no Rio de Janeiro. Não há o que reabilitar. As famílias perderam suas crianças, o bairro perdeu suas crianças e as crianças perderam a vida da forma mais brutal e infundada. A melhor maneira de dignificar suas memórias é tentar fazer da tragédia um observatório e uma plataforma de atitudes voltadas para a infância no Brasil.

A presidenta Dilma Rousseff encerrou a cerimônia oficial da qual participava naquele dia para prestar condolências ao deplorável fato até então inédito na história do País que governa há apenas cem dias: "Esses brasileirinhos que foram retirados tão cedo da vida". A fala em choque e o semblante contristado de Dilma revelaram sua compreensão do tamanho do desafio que temos pela frente para nos tornarmos realmente "um país sem miséria".

A miséria brasileira é maior do que se imagina, porque não se restringe a indicadores como carência material, insuficiência de recursos ou taxa de analfabetismo funcional. O pior da miséria brasileira está nos distúrbios resultantes do abandono da vida simbólica a que relegamos nossa cultura. O assassino teve acesso a emprego, a escola, mas tinha carência de sentido porque, como a maioria das crianças do nosso País, era vitima do não-ser e da massificação do isolamento, como padronização comportamental.

A falta de exercício da dimensão subjetiva, que se nutre nas vivências e convivências culturais, anula a noção de singularidade e de originalidade, fazendo com que o indivíduo perca a autonomia das suas preferências para se condicionar às interinfluências do meio. Destituído da sensibilidade de apreciação e não apenas de repetição, o matador assina na execução de inocentes a sua lealdade à relação fetichista com a violência.

A chacina, em casos como esse, é uma emancipação reversa, um ato de afirmação da falência existencial. O assassino se inclui pelo potencial de atenção que pode causar. A carta que ele deixou é clara em seu delírio valorativo diante da demonização extrema do nada com nada. Ao abater energicamente aquelas crianças ele quis eliminar de vez a inocência, como quem considera imoral a força criativa da infância e sua desconformidade ante um punhado de regras sociais que estabelecem o limite do humano em si mesmo e não no semelhante.

Matar a "ingenuidade" é acabar com a possibilidade de manutenção da esperança. A criança é uma ameaça ao cultor do não-real porque ela olha à vida com credulidade. Então, não adianta repudiar a crueldade do assassino e continuar permitindo a morte lenta da infância no cotidiano do modelo social insustentável que praticamos. Se a violência ocorrida na escola de Realengo mostrou-se primitiva é porque o princípio da idolatria da violência é primitivo. Diluído no dia-a-dia e nas mais diversas formas de avatar, o sacrifício da imaginação e do lúdico vai dilacerando a infância, deixando-a sem sangue para que apodreça higienicamente diante das telas.


Para quem por atos ou omissões contribui com a matança lenta da infância, a deformação coletiva derivada da formatação de homogêneos e obedientes consumidores não passa de ficção. O que a distingue da dolorosa tragédia de Realengo é o choque da perversidade assumida pelo matador. Muitos choraram apenas pelo efeito de condolência desse impacto. Porém, juntamente com a expressão de tristeza estampada no rosto da Presidenta da República, ao lamentar o fato, certamente muitos outros brasileiros sentiram o peso da gravidade da situação.

O que está em questão é a desvalorização da vida real, como abertura de cena para a atuação das drogas, do capitalismo corrosivo e das mensagens de uma vida melhor depois da morte. Na visão do indivíduo que, sem o aconchego de uma cultura que dê beleza ao seu olhar, perde a condição de se reconhecer no mundo físico, o vazio, o nulo ganha importância transcendental. Por isso, em seu esforço adaptativo do prazer, ele mata o corpo, mata a inocência, mata o amor, mata tudo o que para ser pleno necessita de mais alguém.

O matador representa os que não suportam mais os limites da realidade e por isso querem deletá-la. Ele entrou na escola em forma de avatar e não como pessoa. Com sua identidade secreta de indivíduo digital, modelado em madrugadas e mais madrugadas de solidão à frente do computador, quis, com seu distúrbio de julgamento, provar que não existe mais outra coisa que não seja "reality show", messianismo virtual e a verdade psíquica da idolatria da violência. O suicídio no clímax do massacre é uma demonstração do pleno gozo de um corpo que não existe de fato, apenas em imagem de jogo.

A recente campanha de lançamento do "game" intitulado "Dead Space 2", cujo protagonista tem transtornos psíquicos mortíferos, trouxe consigo a mensagem "sua mãe odeia isso", como convencimento aos aficionados em jogos eletrônicos de extermínio. O caderno "Folhateen", de um jornal paulistano que assumiu editorialmente a mudança do conceito de juventude para "teenager", apresentou na segunda-feira, 11, a seguinte dica para o estrelato virtual: "Crie um personagem. Vale ser rebelde, ultracolorido ou tosco: o importante é se destacar entre a multidão".

Tomei esses dois exemplos apenas para mostrar como as bases para a idolatria da violência vêm sendo construídas tanto no desvalor do "marketing" da desconstrução parental quanto na mais "ingênua" das indicações de conquista de visibilidade a qualquer custo. Some-se a isso, a publicidade dirigida à criança, em induções do consumo exagerado, a baixa qualidade conceitual dos produtos e serviços destinados à infância, a banalização da arte, a ausência de espaços públicos agradáveis e apropriados para o brincar e a falta de papéis-modelo, em quem se inspirar, e teremos potenciais matadores da realidade.

Na última "Super Amostra Nacional de Animês" (Sana Fest), realizada em Fortaleza (29 e 30/jan), deu para perceber claramente a concentração de todo tipo de ícone de violência. O que antes parecia simplesmente uma feira de divulgação e venda de produtos da indústria de cultura de massa japonesa para exportação, agora tem garota com suástica tatuada no braço, patrocínio de empresa de segurança (em um evento para a juventude é no mínimo estranho) e camisetas com mensagens do tipo: "Seja um matador, seja uma celebridade" e "Gostei de você, vou matá-lo por último".

Houve um tempo em que os psicopatas tinham o fetiche de matar figuras públicas. Foi assim que Martin Luther King e John Lennon foram assassinados. Nos últimos tempos, esse tipo de fantasia mórbida está se voltando para filhos que matam os pais que não querem emprestar o carro ou para antecipar a herança, e para casos de massacres em "shoppings", estações, cinemas e escolas. São crimes típicos da privação de intimidade com os símbolos sociais edificantes que só a cultura, como ambiente de livre exercício desejante, pode proporcionar.

Por ser capaz de inspirar propósito ao que aparentemente pode até não ter causa final, a criança torna-se alvo vulgar desse tipo de imolação. Como não há como pensar em adulto sadio com o desaparecimento da infância, resta-nos deixar a complacência de lado e dar um sentido ao luto pelas crianças de Realengo. O atirador não está sozinho. No dia do massacre alguém criou um falso perfil do assassino no Orkut e rapidamente a página teve mais de mil e quinhentos seguidores, até que também muito rapidamente foi excluída. Pelo jeito, não estamos muito bem de ídolos.


quinta-feira, 7 de abril de 2011

Como se fosse na mesa de bar - Diário do Nordeste - 7/4/2011




Foi começar a ler "Trem Doido" (Editora Limiar) o novo livro do jornalista Mouzar Benedito, e sentir logo a chegada da voz de Elis Regina cantando "Saudade dos Aviões da Panair", de Milton Nascimento e Fernando Brant. A canção, que tem subtítulo "Conversando num bar", virou trilha sonora do meu ouvido interno e com ela segui causo por causo, num agradável testemunho de que não existe mesmo nada nesse planeta que não se fale em uma mesa de bar. Isso mesmo, esse livro é uma mesa de bar disfarçada de antologia pessoal de momentos contáveis.

O texto é fluido e bem calibrado aos trejeitos do autor, com toda a sua bem-humorada anarquia diante dos fatos e atos. Mouzar chega com o seu simpático ar de mico-leão-dourado e abre a guarda do leitor para sintetizar e recriar coisas que fez e que viu em relatos que mistura sem-vergonhice e aguda observação social própria da sua experiência e cheia de cortes irônicos na realidade. É um livro de quem se define pelo que é, e não pelo que teria desejado ser; um livro de andarilho, com suas pequenas histórias marcadas pela ausência de fronteiras.

Com mais de vinte livros publicados Mouzar Benedito, 64, apresenta uma versatilidade de gêneros que vai da biografia à ficção. Já escreveu a vida do irreverente jornalista gaúcho Barão de Itararé, do escravo abolicionista baiano Luís Gama e do romântico gatuno italo-paulistano Gino Meneghetti, e uma série de histórias de detetive, assinada como Saphira Minds, pseudônimo antes utilizado para fazer o horóscopo de uma revista feminina. Segundo ele, como "safira" nas geraes quer dizer masturbação e "minds" em inglês significa mente, as leitoras da revista "Querida" achavam o máximo, embora não soubessem que no fundo o nome da astróloga queria dizer "masturbação mental".

Mouzar já publicou também livros de humor, um de "memórias burlescas da ditadura" e o recente "João do Rio, 45", no qual narra o cotidiano da Vila Madalena, notável bairro de São Paulo, na voz da parede de uma das casas ocupadas pelos estudantes que, na década de 1970, invadiram a área para do jeito que desse morar perto da Universidade de São Paulo. Num exercício livre de metalinguagem ele aborda os ouvidos de uma das casas da rua João do Rio com ingredientes literários inspirados nas pegadas do cronista carioca que dá nome à rua. É assim que conta da movimentação que transformou aquele bairro em um disputado recanto boêmio da cidade.

O livro não tem floreios gráficos. É um livro e pronto. Conta com uma ilustração aqui e outra acolá, feitas pelo cartunista Ohi, mas o que vale mesmo é a conversa solta. O autor escreve porque escrever faz parte da sua vida, ora como protagonista, ora como escritor. Tudo o que aprendeu como engraxate, barbeiro, seleiro, caixeiro, estudante, contador, geógrafo, professor, pesquisador de cultura popular, tradutor e jornalista tem relação direta com seu grolado literário, o que faz com que as ações narradas nunca sejam gratuitas. Os causos e as crônicas de Mouzar se movem e se locomovem com ele até saltar na estação do "Trem Doido", uns tomando juízo e outros não.

O título do livro alude a uma das formas como os mineiros chamam "mulher bonita". O autor ressalva que a única coisa que essa gente não chama de trem é o trem, "quer dizer, o trem de ferro". É no trem de livro que Mouzar senta com o leitor para se embrenhar Brasil adentro, tendo como distração favorita a arte de zanzar, beber e jogar conversa fora. A leitura é ágil e divertida. "Trem Doido" põe nos trilhos uma reconstituição de acontecidos, revigorada pela magia oral que faz a memória de mesa de bar. Ouve-se a entonação do autor, quando ele diz coisas como "Era uma violência enorme" (p.22). Tem eloqüência na escrita.

Os assuntos e as abordagens são elásticas. Em uma das crônicas, Mouzar conta do dia em que estava dependendo de uma autorização da primeira-dama mato-grossense para fazer uma pesquisa de cultura popular com artesãos locais. Como se fosse pouco alguém ter que se submeter a esse tipo de procedimento, apenas porque a mulher se sentia dona daquelas pessoas, a demora na sala de espera foi irritante. Ao forçar a entrada, ele e o fotógrafo que o acompanhava foram atendidos na presença de algumas senhoras da sociedade, ocasião em que deixou sair devagarinho uma bufa bem fedida e a primeira-dama autorizou rapidamente tudo o que eles queriam (p. 56-57).

Mas nem tudo é avacalhação no "Trem Doido". Em outra parte do livro, Mouzar Benedito relata a satisfação de descobrir em Juazeiro da Bahia uma instituição criada por inspiração em um trabalho que ele havia feito para o Guia Rural Abril, sobre agricultura apropriada ao semiárido. Após escutar uma palestra do diretor do Instituto Regional de Pequena Agricultura Apropriada (IRPAA) sobre as atividades desenvolvidas pela organização, Mouzar se apresentou para ele e comentou sobre a matéria que havia feito para a revista da editora Abril. Diz que o diretor "arregalou os olhos" e declarou: "Esta ONG surgiu a partir de uma grande reportagem que vocês fizeram sobre a agricultura apropriada para o Nordeste!" (p. 72-73).

Para ilustrar a variedade de enfoques constantes nos causos e crônicas do livro, além de cerveja e cachaça, é bem comovedora a história que Mouzar conta do Miguel Turco, um comerciante libanês (e não turco) com quem ele trabalhou quando tinha quinze anos. Quando Miguel percebia que a pessoa era pobre ele vendia a mercadoria a preço de custo sem o freguês saber. "Não se exibia, não transformava essa ação em ´caridade´, não humilhava o sujeito que não podia pagar os preços normais" (p.112).

O autor pertence à categoria dos que chutaram o pau da barraca dos valores burgueses para experienciar a aventura da insubordinação dos caminhantes. Sua matriz está no talco e no álcool da barbearia, na sola e na cola da sapataria, no calor e no ardor da terra, na lavra da palavra, enfim, na mistura de habilidades com que percorreu com gosto o País pelos atalhos. Buliçoso e puxador de papo, camarada e bonachão, materialista e ´saci´ólogo, ele caiu fora do centro gravitacional dos estereótipos e da busca do entendimento das contradições dessas metades para viver e contar a sua tresloucada e solícita humanidade.

Querendo ou não, "Trem Doido" dá um sentido para o vagar, para a vida de quem não se cansa de mexer com o que está quieto, ao desafiar a alma das histórias de perambulação, conferindo memória a si e aos amigos com quem compartilha a noção dos dias, das horas e de lugar no mundo. Transbordando do que resta das situações que a existência lhe impõe e do que se acumula com a sua verve inventiva, Mouzar Benedito solta a língua, solta o verbo preso na absurda normalidade hilariante. É mesa de bar. Boteco puro. Verbosidade olho no olho, lembranças em trânsito e outras sensações que dialogam com quem pega esse trem.

O melhor de Mouzar é que ele senta à mesa como se fossem vários. Tem conversa para tudo quanto é roda. É um autor de muitos temas. Fala e escuta como quem oferece ou pede carona na sua viagem ou na viagem do outro. Deslocar ou deslocar-se para onde for e do jeito que for é um segredo que ele faz questão de espalhar. Quando isso acontece em livro, como é o caso de "Trem Doido", ele trata o leitor como um convidado a interpelá-lo sobre a transformação dos afazeres em farra e da experiência em terreno fértil de recordações. E como uma recordação puxa outra, continua ressoando em mim a voz de Elis cantando que "em volta dessa mesa existem outras falando tão igual". É o "Trem Doido" pedindo passagem.